terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Tempo de chuva, tempo de praga!

Como este assunto preocupa todo orquidófilo amador, fiz esta indagação e diversos amigos se pronunciaram a respeito. Escolhi a mensagem do Ricardo Cruz, que nos deu uma verdadeira aula. Vejam só o que diz:


Alô Vera,

Ando afastado da lista (trabalho como sempre), mas ainda estou no pedaço e ocasionalmente ainda leio nossa lista, e cabe um comentário no assunto.

Nessa época do ano, com as chuvas, vem esse extraordinário aumento de umidade e, os dias de estiagem com sol forte e temperatura elevada, fazem o ambiente perfeito para fungos e bactérias. E aí acontece o dilema do orquidófilo.

O caso é o seguinte: se não prevenir uma infestação, que é uma perda de controle das pragas em um cultivo, depois será necessário combater com armas poderosas. E aí se cai na questão de quais defensivos e dos métodos a utilizar (a história de botar a tranca depois da porta arrombada).

Um breve resumo das pragas, visíveis e invisíveis a olho nu: insetos, fungos e bactérias.

Insetos

Nos ramo dos insetos, temos como campeões a cochonila em suas várias formas, moscas e besouros, afídeos (pulgões, também de varios tipos), ácaros, bem como caramujos, tatuzinhos e outras desgraças de substrato e formigas.

E perguntareis, caros, formigas são pragas? Não exatamente, já que é raro estrago causado por elas em orquídeas (algumas orquídeas fazem simbiose e se desenvolvem apenas em contato com formigas), mas pelo fato das mesmas levarem e protegerem os pulgões, que secretam um líquido após sugarem as plantas, o qual é apreciado pelas formigas. As formigas "pastoreiam" os pulgões, como se fossem vacas e, assim como na Índia (se me permitem), para as formigas os pulgões são sagrados...

Controle de moscas e avoantes em geral são feitos por inseticidas de contato, que no tempo das chuvas têm baixo poder residual, sendo lavados pela água. Os insetos que colocam ovos, seja, nas raízes ou perfurando bulbos e brotos, deve ser combatidos com inseticida sistêmico (o mais sensato usar em tempo de chuvas). As placas coloridas com adesivo (azul para insetos de vôo rápido e amarelo para os de voo (já sem acento) lento - ou vice-versa, não consigo lembrar) ajudam a capturar os meliantes. Os tripes, altamente móveis, podem ser capturados com etiquetas brancas. E coisa caseira, só com cola, não usam a totalidade do método - as profissionais são mais efetivas, pois possuem também inseticida. Essas placas parecem coisa de simpatia - funcionam e tal, mas é meio desperdício de tempo e talento - são válidas se você morar numa região onde a quantidade de insetos é fenomenal. São importantes para capturar e identificar algum inseto que possa requerer um defensivo específico, e são efetivos em grandes cultivos (de 1.000/2.000 plantas para cima). Em cultivo amador são meio assim, digamos. Ajudam mas não resolvem.

Cochonilhas são o problema mais sério e o menos levado a sério. Como a gente pode ver a maldita, achamos que o que não vemos não existe e aí mora o perigo. São díficeis de eliminar a partir de um certo estágio, e se estiver espalhada por todo orquidário, a perda de plantas é certa. Em nosso país, de clima temperado e quente, um bom método de combate é também um pouco arriscado - o óleo mineral. O efeito do sol agregado ao óleo mineral pode causar problemas - nunca passar de 1%.

Vejam a escalada do problema:
pouca coisa: limpeza e eliminação das partes infectadas; populações baixas do inseto, mas disseminadas por várias plantas: óleo mineral (0,5% a 1%); populações moderadas do inseto por várias plantas - óleo mineral (0,5% a 1%) + inseticida fosforado; altas infestações, por todo orquidário e em grande quantidade por planta: carbamatos e fosforados sistêmicos

Os ácaros parecem não se importar muito com os inseticidas normais e vão levando sua vidinha. Orquídeas de folhas finas sofrem muito (em Catasetum é quase uma norma) e precisam de defensivo específico, normalmente piretróides (o melhor que sei é o Vertimec - abamectina).

Bem, e a prevenção? Dos defensivos alternativos, como inseticidas há o óleo mineral, o óleo de Nim e o Combat. O Combat possui pimenta em sua fórmula, e pode manchar flores. Funcionam? Sim, mas a coisa é a LONGO PRAZO. Ninguém aplica Nim e vê o bicho dar uma cambalhota e ficar de pernas esticadas. Interfere na reprodução dos insetos, algo assim como um oposto do Viagra... Tive sucesso com o Nim para controlar tatuzinhos no substrato. O Combat, bem, não notei muita coisa, mas é efetivo em uma certa medida (parece aquelas garrafadas vendidas em feiras populares, com 25 ervas, cada uma boa para uma coisa qualquer), mas ficar indo e vindo da loja comprar meio litro para aplicação direta, sem diluição, não é econômico.

Os defensivos tradicionais vão depender da quantidade do desleixo e de quanto a praga avançou. Numa certa altura, querer usar defensivos "alternativos" é querer usar band-aid em UTI. Mas quem continuat ecológico nessa fase (e também irresponsável, por deixar chegar a esse ponto) pode ficar tranquilo, pois se perder todas as plantas, em 8/10 anos se consegue ter de novo uma coleção razoável...

E agora os mais perigosos, fungos e bactérias.

Bactérias

Pelas bactérias, duas doenças mais comuns e terríveis: a primeira a mancha aquosa ou mancha marrom, causada pela Pseudomonas, mais comum em Phaleonopsis. Começam como lesões meio esbranquiçadas e úmidas e depois evoluem para lesões fundas e escuras e muitas vezes são confundidas com queimaduras de sol. Água de rega que toca nessas lesões, ao respingar, infectam outras plantas. E a segunda, a mais temida doença bacteriana, é a podridão mole, causada pela famosa Erwinia. Essa acaba com qualquer coleção. Começa com uma podridão mole e com cheiro péssimo e leva o orquidário inteiro - em planta juvenis a morte é quase certa.

Fungos

As principais doenças:

Podridão negra (Pythium e Phytophthora) - a campeã, hors concours. Desgraça certa em um orquidário - e muitas vezes confundida com a podridão mole, que é de origem bacteriana, o que pode levar ao uso de defensivos incorretos.
Murcha ou Podridão de raízes e bulbos - vulgo canela seca, cusado pelo Fusarium.
Antracnose - manchas nas folhas, circulares, deprimidas e bem definidas, causada pelo Colletotrichum
Ferrugem - essa é até bobagem perto das outras, e é causada pelos Sphenospora sp, Uredo sp. e Hemileia sp
Mofo cinzento - atacando principalmente flores, causada pelo Botrytis. Não é específico de orquídeas, então cuidado quem gosta de misturar outras plantas em seu orquidário, para ficar bonitinho.
Manchas sob as folhas - causado pelo Cescospora, as manchas são irregulares e amareladas, passando a ter depressão e cor mais escura e com pontos negros. Na superfície nota-se um pequeno ponto amarelado que depois começa a necrosar - quando se vai olhar por baixo é que se vê o estrago.

Bem a a prevenção? Aplicar bactericida (menos comum) e fungicidas preventivamente, exige rotação dos princípios ativos, e pelo menos 3 tipos devem ser parte do arsenal do cultivador para ser aplicado em rotação para evitar que as praga fique resistente ao princípio ativo. E aí algum desavisado pode querer saber quais os defensivos a usar - bem não existe receita pronta. Vai depender de quais os patógenos mais comuns em sua região. E o conselho de gente muito experiente ou profissional é que vai resolver seu problema - indicar defensivos no "atacado" vai sair caro e pode não ter resultados efetivos. Aplicar fungicida em problema bacteriano e vice versa não vai adiantar.

Mas qual a saída? O alternativo mais promissor para uso preventivo é o dióxido de cloro estabilizado, vendido com a marca comercial TecsaClor. Meio litro por 45 galinhas ou menos, diluição de 50 ppm. Esse já foi testado em orquídeas. É eficaz contra fungos e bactérias e tem ação sistêmica em raízes e folhas por uma semana. Antes que alguém fique nervoso, não é um defensivo nem um agrotóxico, é um desinfetante, não precisa de receita e é certificado para cultivo orgânico.

Mas queridos, é impossível cultivar qualquer coisa sem pragas presentes. Quando se faz monocultura, é natural que os predadores desse cultivo (orquídeas) apareçam por lá - é a função deles. O segredo é manter esses patógenos e insetos sob controle. E controlar significa responsabilidade e higiene no cultivo, e muito trabalho até se obter uma maneira de deixar as coisas tranquilas e se poder usufruir tudo o que a orquidofilia pode proporcionar.

Deixar um coleção se perder por desleixo ou falta de bom senso e depois ficar querendo uma solução mágica, a tal bala de prata ou defensivo Tabajara, onde seus problemas estão resolvidos, é bobagem. Sem contar que tem gente que ainda fica revoltada porque nenhum luminar da lista, com tantos cobrões, não conheça uma receitinha, um chazinho ou uma erva super-natural que resolva o problema que possivelmente criou.

Opinião por opinião, creio que os únicos produtos alternativos, que não são defensivos tradicionais, de bom efeito e bom preço são o óleo mineral (inseticida), óleo de Nim (inseticida) e o TecsaClor (fungicida e bactericida). Apesar dos pesares, já foram usados em orquídeas e pelo menos são seguros.

Quanto a outros, não sou fã da calda bordalesa, pelo contrário, acho extremamente perigosa para orquídeas por causa do cobre. A calda de fumo, sou mais contra ainda. A calda sulfocálcica é um dos males menores, mas existe coisa melhor que isso. A respeito do leite cru, isso é alternativo demais (e pouco efetivo) - como esterilização nem pensar. Leiam, pesquisem e vão ver que os riscos não compensam.

O que passar disso e ameaçar se tornar uma grave infestação, chamem a SWAT, os defensivos tradicionais, químicos. E aí cada um vai ter que saber exatamente qual o seu problema. E tem mais - se a infestação for braba, nem os defensivos são garantia de sucesso - muitas vezes já se passou do ponto de intervir. Aí pode ser tentado regar com água benta...

Quem ainda não viu, aqui mesmo na lista, os relatos de infestações de podridão, onde a cada dia o amigo relatava a perda de 20/30 plantas, num trabalho insano de cortar partes afetadas e tentar de tudo para salvar as restantes, não sabe como é doloroso ver um cultivo de muitos anos se perder em uma semana. Então, amigos, esse é o lado sério da orquidofilia, onde nem tudo são flores.

Então, por partes: primeiro isolar qualquer planta com suspeita, depois suspender regas e adubações. Em plantas adultas, corte logo, sem dó, o que puder cortar das partes afetadas e sele o corte com o produto de sua preferência. Identifique a praga, do jeito que puder, e inicie um combate de imediato, de todas as plantas. Se a coisa ficar muito feia, também sem dó queime as plantas muito afetadas. Se tiver pena, leve para bem longe - pendurar numa árvore próxima do orquidário para ver se ela se recupera, pode dar problema no futuro. E incremente a higiene do cultivo para padrão hospitalar - nem de brincadeira pegue em outra planta sem lavar as mãos.

E tudo que está acima vem de uma das melhores fontes sobre pragas e doenças - é do livro do Ricardo Gioria, que já foi aqui da lista. Uma pequena parte pode ser vista no site
http://br.geocities.com/clubedaorquidea/RicardoGioria.html É um resumo, bem resumido, do livro. Quem quiser informação de qualidade, compre este livro que é uma mina, D & P ( Doenças e Pragas) que atacam as Orquídeas - Ricardo Gioria - Editora Brasil Orquídeas - custa umas 25/27 galinhas.

Perdão por ser muito direto, mas é por aí.

Abraços,
Ricardo Cruz - Vitória - ES

2 comentários:

vera castro disse...

!! è bem por aí mesmo,maravilhosa a matéria e seu comentário sobre as pragas,acho que o caminho é esse e que Deus nos ajude!,aqui onde móro chove sem para à mais de uma semana,fico de olho nas orquideas, tirei todas da chuva e estou fazendo a drenagem
Um grande abraço!

albanita disse...

fico muito feliz por aprender cada vez mais como cuidar das minhas orquideas,muito obrigada sempre que tenho dúvidas entro aqui para ficar mais tranquila bjsss